ATUALIZAÇÃO (20/04 às 22h07): LOCAL E DATA DA TEMPORADA DE AS CIDADES INVISÍVEIS FORAM ALTERADOS.

Mais informações em breve.

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No próximo 26 de abril, o Agora Coletivo estreia a peça As Cidades Invisíveis, na qual realiza um trajeto com o público.

A seguir, o diretor Renato Sbardelotto fala um pouco sobre as origens e as propostas do projeto.

(Foto: a atriz Ana Ferreira, por Eli Firmeza).

Sobre o que trata a peça?

A ideia do projeto começou durante a leitura de uma conferência proferida por Wim Wenders na qual explora conceitos de “identidade”, “fronteira” e “sentido de lugar”. Partindo dessas ideias comecei a pensar em como seria montar um espetáculo inspirado em uma cidade, que falasse de suas pessoas, seus trajetos, suas construções e ruínas. Durante essa reflexão, As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, me veio a mente e rimou com meus pensamentos.

No livro, o personagem Marco Polo narra ao imperador Kublai Khan cinquenta e cinco cidades por onde teria passado. Cada uma dessas cidades possui um nome de mulher, uma lógica própria e uma estrutura bastante onírica. O conceito de “cidade” é posto sob a perspectiva de que são impulsos inconscientes que dão forma a sua estrutura. Nossas ações e relações são regidas por desejos e medos e é essa subjetividade que determina as necessidades que desenham tanto o que é visível, como também o que é invisível.

Nessa direção, o espetáculo traça uma narrativa que beira a linguagem dos sonhos, com imagens misteriosas, enigmáticas, e faz uma analogia entre as “cidades” e as mulheres que formam o elenco do trabalho. Inspirada na personalidade de cada uma delas, As Cidades Invisíveis é uma trajetória por suas histórias autobiográficas. E quando digo “trajetória” é também porque literalmente há um trajeto que se faz com o público por um espaço de múltiplos cenários.

O processo de montagem começou com caminhadas pelas ruas de Curitiba e também carrega em sua dramaturgia aspectos da capital do estado. A escolha do local de apresentação também se deu em decorrência dessas caminhadas. Ao ocupar uma antiga estação de tratamento de água, hoje “Museu do Saneamento”, o espetáculo compõe com diversos cenários desse lugar. A presença oculta, mas tão latente, da água, elemento feminino, fugidio como a memória, é lembrança do próprio espaço, que flui, transborda e fertiliza pela voz dessas mulheres.

 

Por que fazer esta peça neste momento?

A autobiografia em cena dá ao intérprete uma oportunidade muito poderosa de incorporar sua própria experiência de vida no território da ficção/performatividade. Nesse lugar, a história da pessoa não apenas mantém sua individualidade, como também passa a ser, em diferentes níveis, a história de todos. A ela se atribui um caráter de mito, o que gera uma série de desdobramentos e ressignificações sobre si mesmo e sobre o todo. Esse exercício acaba por tocar não apenas o campo da experiência estética, mas também terapêutica e espiritual. Uma reflexão sobre si é também abertura de caminho em direção ao outro.

Diante de tempos tão inflamados, com ideais tão díspares entre as pessoas, como conviver com as diferenças em um mesmo espaço, casa, cidade, estado, país? Insurgir cada vez mais na arte, com arte e através da arte é um ato de resistência por si só. Mas me pergunto se essa postura realmente é suficiente. Se a arte de seguir fazendo espetáculos de teatro basta, se podemos ir além. O processo de montagem nos oportunizou a abertura do olhar para a energia feminina, ponto neutro, que nada anseia e tudo acolhe, diante de todo o caos do movimento humano. A meditação como prática dentro dos ensaios tem sido uma chave para recuperar essa energia, invisível e subjugada ao longo da história. A cada dia que passa a arte se revela como um potencial lugar de acolhimento, de encontro, de repouso, recuperação, respiradouro, troca, colo e morada. Além da meditação, que enraíza nosso inconsciente no trabalho, a pesquisa sobre nossos materiais autobiográficos tem gerado também a reflexão sobre nossas identidades, a tomada de consciência e a cura. Acredito que curar a si é curar o outro e o todo, aos poucos. E nessa direção um processo como esse vai muito além das fronteiras que conhecemos como arte do espetáculo.

Falar poeticamente de cidades – inspirados pelo modo como Calvino o faz – é uma forma de colocarmos em perspectiva e de sensibilizarmos para o quanto viver em sociedade significa troca entre indivíduos complexos e repletos de subjetividades. Todo sujeito é formado por tantos aspectos entrecruzados que forma, ele mesmo, uma espécie de cidade, um conjunto de subjetividades que podem ser vistas através daquilo que ele materializa, das suas ações e relações. Quando falamos em uma cidade literal, temos então um emaranhado de complexos cidades-indivíduos. A cada vez que a escala aumenta, temos mais noção do quão pouco objetivo o mundo é. Somos, cada um, um universo que, com suas vivências, assume perspectivas com relação aos outros universos nas mais diversas escalas: o sujeito, a sociedade, o mundo contemporâneo.

 

Como aconteceu a escolha do espaço?

Estávamos na busca por um lugar a céu aberto, natural, mas que ao mesmo tempo sublinhasse a estrutura de uma cidade e seus aspectos históricos. Ele deveria oportunizar a possibilidade de um trajeto com o público e ao mesmo tempo abrigar cenas mais intimistas. A partir das caminhadas pelas ruas da cidade chegamos ao Museu do Saneamento, espaço que além de compor dramaturgicamente com o espetáculo recebeu de braços abertos a proposta.

 

Como foi construída a cidade/universo de cada atriz?

No livro de Calvino, Marco Polo narra ao imperador Kublai Khan cinquenta e cinco cidades por onde teria passado. Cada uma dessas cidades tem nome de mulher e uma lógica e personalidade próprias. Inspiradas nestas cidades e na forma como Calvino as descreve, cada uma das atrizes escreveu o texto de sua própria cidade. Ana tem uma cidade cujo nome é Ana também, por exemplo. Nessa narrativa, ela apresenta características que refletem muito do que é a própria autora, como se desse corpo seu próprio universo, as questões que a movem no mundo, seus enigmas, as relações entre seu maior desejo e seu maior medo.

 

O que o espectador poderá ver aceitando o convite para estar junto com vocês?

A peça descreve uma trajetória com o público dentro de um espaço pouco conhecido e descentralizado da cidade de Curitiba. Assumindo o onirismo como linguagem, o roteiro desenvolve uma linha narrativa singular, diferente de montagens tradicionais. Em cena vemos relatos autobiográficos e algumas digressões que carregam nuances de comicidade, crítica, ironia e também composições dramatúrgicas e visuais que podem sensibilizar o espectador em outros níveis. Quem aceitar o convite para visitar As Cidades Invisíveis conhecerá o resultado de um processo de criação intenso, muito bonito e que toca diferentes áreas do conhecimento, como a filosofia, a psicologia, a espiritualidade, a arquitetura, a medicina holística e, claro, a arte.

 

Que espaços o grupo deseja que o espectador adentre com o trabalho?

O convite é para adentrar espaços de suas próprias memórias. Que o espectador perceba a complexidade das “cidades” que crescem dentro de cada um. E dê atenção às suas próprias “cidades”. Que se adentre em seus próprios espaços. Se a gente quer curar o que a gente considera doente, desumano, e que está fora, nessa cidade e nos discursos que nos cercam, curar a “cidade” de dentro é o ponto de partida. Ao fechar a narrativa de As Cidades Invisíveis Calvino nos dá uma pista:

“O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar saber e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço”.

 

Serviço:

As Cidades Invisíveis

De 26 de Abril a 20 de Maio

Sextas, Sábados, Domingos e Segundas às 20h. Sábados e Domingos também às 16h.

Local: Museu do Saneamento. Rua Eng. Antônio Batista Ribas, 151 – Tarumã.

Entrada Franca.

Limite de 50 pessoas por sessão.

Em caso de chuva meia hora antes não haverá apresentação. Contato: (41) 9 9914-9190. mabittencourt@hotmail.com

 

Ficha técnica: 

Inspirada na obra de Ítalo Calvino

Roteiro e direção: Renato Sbardelotto

Intérpretes-criadoras: Ana Ferreira, Fabiane de Cezaro, Flávia Imirene e Vivian Schmitz.

Textos: Ana Ferreira, Fabiane de Cezaro, Flávia Imirene, Vivian Schmitz e Renato Sbardelotto.

Interlocução e amadrinhamento: Lía Mariana Gómez Spatakis.

Direção musical e preparação vocal: Karla Izidro.

Preparação Corporal: Renato Sbardelotto.

Figurino: Ailime Huckembeck.

Iluminação: Lucas Mattana.

Cenário: Renato Sbardelotto.

Ilustração e Design Gráfico: Daniel Lourenço.

Fotos: Eli Firmeza.

Assessoria de Comunicação e Imprensa: Fernando de Proença.

Direção de Produção: Renato Sbardelotto.

Produção Executiva: Michele Bittencourt.

Assistência de Produção: Jhon Booz.

 

Uma realização do Agora Coletivo em parceria com a Híbrido Produções e Plateia Produções Artísticas.

Projeto realizado com o apoio do Programa de Apoio e Incentivo à Cultura – Fundação Cultural de Curitiba e da Prefeitura Municipal de Curitiba.

Incentivo: Divesa e Banco do Brasil.

Apoio: Sanepar, Padaria América, Missê Mariá Comida e Arte, A Caiçara e Café do Teatro.

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Now it’s conversation

 

On April 26, Agora Collective debuts the piece The Invisible Cities, in which it walks with the public.

The director Renato Sbardelotto talks a little about the origins and the proposals of the project.

(Picture: the actress Ana Ferreira, by Eli Firmeza)

What is the piece about?

The idea of ​​the project began during the reading of a conference given by Wim Wenders in which he explores concepts of “identity”, “frontier” and “sense of place”. Starting from these ideas, I began to think about what it would be like to set up a show inspired by a city that spoke of its people, its routes, its buildings and its ruins. During this reflection, The Invisible Cities, from Italo Calvino, came to mind and rhymed with my thoughts.

In the book, the character Marco Polo tells the emperor Kublai Khan fifty-five cities where he would have passed. Each of these cities has a woman’s name, a logic of its own and a very dreamlike structure. The concept of “city” is put under the perspective that they are unconscious impulses that give shape to its structure. Our actions and relationships are governed by desires and fears and it is this subjectivity that determines the needs that draw both what is visible and what is invisible.

In this direction, the show traces a narrative that borders the language of dreams, with mysterious, enigmatic images, and makes an analogy between the “cities” and the women who form the cast of the work. Inspired by the personality of each of them, The Invisible Cities is a trajectory for their autobiographical stories. And when I say “trajectory” it is also because there is literally a path that is done with the audience through a space of multiple scenarios.

The assembly process began with walks through the streets of Curitiba and also carries in its dramaturgy aspects of the state capital. The choice of place of presentation was also due to these walks. When occupying an old water treatment plant, today “Sanitation Museum”, the show composes with several scenarios of that place. The hidden presence (but so latent) of the water –female element, fugitive as memory – is a memory of space itself, which flows, overflows and fertilizes by the voice of these women.

 

Why do this play right now?

The autobiography on the scene gives the performer a very powerful opportunity to incorporate his or her own life experience into the realm of fiction / performativity. In this place, the story of the person not only maintains his individuality, but also becomes, at different levels, the history of all. It is attributed a character of myth, which generates a series of unfoldings and resignifications about itself and the whole. This exercise ends up touching not only the field of aesthetic experience, but also therapeutic and spiritual. A reflection on itself is also opening the way towards the other.

In the face of times so inflamed, with ideals so disparate among people, how to live with differences in the same space, home, city, state, country? Insurging more and more in art, with art and through art is an act of resistance in itself. But I wonder if that posture really is enough. If the art of continuing to do theater shows is enough, if we can go further. The assembly process allowed us to open our eyes to the feminine energy, a neutral point that desires nothing and welcomes everything, in the face of all the chaos of human movement. Meditation as a practice within trials has been a key to recovering this energy, invisible and subjugated throughout history. With each passing day, art reveals itself as a potential place of welcome, meeting, rest, recuperation, breathing, exchange, lap and dwelling. In addition to meditation, which rooted our unconscious at work, research on our autobiographical materials has also generated reflection on our identities, awareness and healing. I believe that healing yourself is healing the other and the whole, little by little. And in that direction a process like this goes far beyond the boundaries we know as the art of the spectacle.

Speaking poetically of cities – inspired by the way Calvin does it – is a way of putting ourselves in perspective and of sensitizing us to how much to live in society means exchange between complex individuals and full of subjectivities. Every subject is formed by so many crisscrossed aspects that he himself forms a kind of city, a set of subjectivities that can be seen through what he materializes, of his actions and relations. When we speak of a literal city, then we have a tangle of complex individual-cities. Each time the scale increases, we are more aware of how little objective the world is. We are each a universe that, with its experiences, assumes perspectives with respect to the other universes in the most diverse scales: the subject, the society, the contemporary world.

 

How did the choice of space happen?

We were in search of an open and natural place, but at the same time underlining the structure of a city and its historical aspects. It should allow the possibility of a route with the public and at the same time shelter more intimate scenes. From the walks through the streets of the city we arrived at the Sanitation Museum, a space that composes dramaturgically with the show, besides having received the proposal with open arms.

 

How was the city / universe of each actress built?

In the book of Calvin, Marco Polo tells the emperor Kublai Khan fifty-five cities through which he would have passed. Each of these cities has a woman’s name and a logic and personality of its own. Inspired in these cities and in the way Calvin describes them, each of the actresses wrote the text of their own city. Ana has a city whose name is Ana too, for example. In this narrative, it presents characteristics that reflect much of what the author herself is, as if from her body her own universe, the questions that move her in the world, her enigmas, the relationships between her greatest desire and her greatest fear.

 

What can the viewer see by accepting the invitation to be with you?

The play describes a trajectory with the public within a little known and decentralized space of the city of Curitiba. With a dream language, the script develops a singular narrative line, different from traditional montages. In the scene we see autobiographical accounts and some digressions that carry nuances of comedy, criticism, irony and also dramatic and visual compositions that can sensitize the spectator in other levels. Those who accept the invitation to visit The Invisible Cities will know the result of an intense, beautiful process of creation that touches different areas of knowledge, such as philosophy, psychology, spirituality, architecture, holistic medicine and, of course, art.

 

What spaces does the group want the viewer to get in with the work?

The invitation is to enter spaces of your own memories. Let the spectator perceive the complexity of the “cities” that grow within each one. And pay attention to your own “cities.” Let them enter into their own spaces. If you want to heal what you consider to be sick, inhuman, and that you are outside, in this city and in the discourses that surround us, healing the “city” from within is the starting point. In closing the narrative of The Invisible Cities Calvin gives us a clue:

“The hell of the living is not something that will be. If there is one, it is that which is already here, the hell we live in every day, that we form together. There are two ways of not suffering. The first is easy for most people: to accept hell and become part of it to the point of not realizing it. The second is risky and requires continuous attention and learning: to seek to know and to recognize who and what, in the middle of hell, is not hell, and preserve it, and make room.”

 

The Invisible Cities

From April 26th to May 20th

Fridays, Saturdays, Sundays and Mondays at 8pm. Saturdays and Sundays also at 4pm.

Location: Sanitation Museum. Rua Eng. Antônio Batista Ribas, 151 – Tarumã.

Free entrance.

Limit 50 people per session.

In case of rain half an hour before there will be no presentation. Contact: (41) 9 9914-9190. mabittencourt@hotmail.com

 

Cast and Crew:

Inspired by the work of Italo Calvino

Script and direction: Renato Sbardelotto

Interpreter-creators: Ana Ferreira, Fabiane de Cezaro, Flávia Imirene and Vivian Schmitz.

Texts: Ana Ferreira, Fabiane de Cezaro, Flávia Imirene, Vivian Schmitz and Renato Sbardelotto.

Exchange and godmotherhood: Lia Mariana Gómez Spatakis.

Musical direction and vocal preparation: Karla Izidro.

Body Preparation: Renato Sbardelotto.

Costume Designer: Ailime Huckembeck.

Lighting: Lucas Mattana.

Scenario: Renato Sbardelotto.

Illustration and Graphic Design: Daniel Lourenço.

Photos: Eli Firmeza.

Communication and Press Office: Fernando de Proença.

Production Director: Renato Sbardelotto.

Executive Production: Michele Bittencourt.

Production Assistance: Jhon Booz.

 

An accomplishment of Agora Collective in partnership with Híbrido Produções and Plateia Produções Artísticas.

Project carried out with the support of the Program of Support and Incentive to Culture – Cultural Foundation of Curitiba and the Municipality of Curitiba.

Incentive: Divesa and Banco do Brasil.

Support: Sanepar, Bakery America, Missê Mariá Food and Art, The Caiçara and Café do Teatro.

 

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